terça-feira, setembro 21, 2004

Solidão

Ao longo de toda a história da existência humana, o Homem, aparentemente, tem-se sentido só. Seja em Lisboa, Paris, Nova Iorque, Roma, Adis Abeba, Alexandria, o ser humano questiona-se, debaixo da soleira de uma porta, diante de uma janela, debaixo de uma árvore, porque estará sozinho. Isto é, porque é que, com milhões e milhões de pessoas ali à mão para chatear, porque é que, repito, se encontra sozinho? A solidão é mesmo isso, são «eles». Os «outros». A humanidade. Provavelmente, o primeiro macaco pensante era um macaco feliz, intocável, dono do seu destino, até que outro apareceu. A simples existência de outro macaco fazia-o sentir-se sozinho, por muito longe que estivessem um do outro, e por muito pouco que interferissem nos assuntos um do outro. O conhecimento da existência do outro fazia sempre sentir um abandonado. Mesmo que nunca tivessem trocado palavras. A solidão é, quase se poderia dizer, o ódio pelo desconhecido.

O ser humano evoluído fisicamente não é muito diferente de outros animais. Aliás, é onde essa falta mais se evidencia. O ser humano, mais que qualquer outro representante da fauna mundial, é um ser cheio de ódio pelo desconhecido. Quanto mais sozinho, mais odeia. Entre o palerma, que encara as relações humanas como uma teia de amizades interligada e irreversível, e o ser irascível, pois solitário, vai toda uma possibilidade de existência. A suma pergunta humana resultante da solidão é: «onde estão os outros»? Mesmo Estaline, o «monstro» (epíteto muito utilizado para desculpar a natureza humana), no seu leito de morte, deve ter perguntado: «onde está Bukharine?». O ódio pelo desconhecido e o remorso regressivo são os dois pilares da solidão. Por mais pessoas que entrassem no quarto, o dirigente soviético continuaria: «e Bukharine? onde está Bukharine?».

O Homem nasceu sozinho, ou seja, nasceu feliz e acompanhado de si mesmo. Na realidade, não estava mesmo sozinho. Foi quando conheceu os amigos, os grupos, as famílias, as multidões e massa informe da Humanidade que percebeu que estava sozinho. Até o francês De Gaulle, ao desvanecer, teve tempo para sair do seu narcisismo. Numa última curiosidade, poderia ter inquirido: «para onde foram todos?».

[João Silva]